CONGRESSO MUNDIAL DE ORAÇÃO PELA VIDA!

Fátima, 4 a 8 de Outubro 2006

 

Nr. 2

5 de Outubro 2006

Karl Josef Romer, Bispo Secretário do Pontifício Conselho para a Família

 

A SANTIDADE DA VIDA

 

 

 

1) Ler a Bíblia com fé, com uma crítica esclarecida

 

1.1 Nem mito, nem relatório fotográfico

1.2 O que são os mitos?

1.3 O gênero novo: relato histórico salvífico sobre Deus e o homem

1.4 A ruptura radical no relato bíblico: “Façamos o homem à nossa imagem”

(Gen 1,27).

 

2) A imagem de Deus e sua semelhança

 

2.1 O homem deve pertencer só a Deus

2.2 A solidão original do homem no mundo

2.3 A dualidade do sexo, expressão plena da imagem de Deus, e caminho para Deus

2.4 O afastamento de Deus

2.5 Nova esperança: Deus quer ser tudo para o homem

 

3) Criatura do Deus Trino

 

3.1 Dados bíblicos

3.2 A doutrina da Igreja

3.3 A plenitude da vocação do homem

 

4) Criado em Cristo, por Cristo, para Cristo

 

4.1 No Evangelho de João e em São Paulo

4.2 Protologia e Escatologia

4.3 O hino cristológico cósmico


A SANTIDADE DA VIDA

 

Literatura:

 

Scheffczyk Leo, Schöpfung als Heilseröffnung, in: Leo Scheffczyk und Anton Ziegenaus, Katholische Dogmatik, dritter Band.

Gross H., Theologische Exegese von Genesis 1-3, in: Mysterium Salutis II (hrsg. Von J. Feiner u. M. Löhrer), Einsiedeln 1967, 421-463 (dt)

Scheffczyk Leo, Einführung  in die Schöpfungslehre, Darmstadt 31987

Ziegenaus A., „Als Mann und Frau erschuf er sie“ (Gen 1,27). Zum sakramentalen Verständnis  der geschlechtlichen  Differenzierung des Menschen, in: MThZ 31 (1980) 19-32.

Schmaus M., Der Glaube der Kirche III 21979

 

Preâmbulo

 

            Crer que o homem é a criatura singularmente escolhida por Deus, no meio de todas as criaturas, significa crer que este homem tomou seu início no ser íntimo, no coração de Deus. No mundo, a existência deste homem deve ser louvor à glória de Deus e tornar-se para os homens uma luz que é portadora da salvação. O homem, longe de ser uma emanação de Deus (difusão da própria substância divina), é verdadeiramente feito por aquele amor que o fez conforme a Divina realidade. E feito misteriosamente segundo esta Divina realidade, dela o homem deve dar testemunho. A santidade da vida humana é o ápice do grande plano criador de Deus; por amor, Deus se pronuncia e se manifesta no homem.

 

 

1) Ler a Bíblia com fé, com uma crítica esclarecida

 

1.1 Nem mito, nem relatório fotográfico

            A asserção fundamental sobre a fé cristã na criação divina encontra-se já nas primeiras páginas do Antigo Testamento, no relato «sacerdotal» (Gen 1,1-2,4ª) e no texto anterior yahwístico (Gen. 2,24b-3,24)”, que não teme usar certos elementos antropomórficos (cf. Scheffczyk, III,59[1]).

            Os capítulos Gen. 1-11 não podem ser tomados em uma interpretação simplesmente verbal, como se tratasse de um relato policial documentado por uma câmara escondida. Tão pouco acerta a realidade do texto quem – como o iluminismo o fez – o degrada ao nível de um mito. É útil conhecer as diferenças características entre mito e relato bíblico da criação.

 

1.2 Que são os mitos?

            O mito é profunda e essencialmente diverso do relato bíblico. Para o iluminismo, Gen. 1-3 não seria outra coisa que a compilação de pedaços de origem mítica, com a intenção de ilustrar, com viva fantasia, o início do mundo, que ficará sempre inexplicável. Seria bem útil aprofundar aqui a estrutura dos mitos. Eles querem oferecer uma certa explicação (da ordem) do mundo, mas não visa diretamente a relação entre Deus e o homem. Em uma espécie de retro-projeção, o mito pretende explicar a causa dos ritmos naturais e cíclicos do mundo, experimentados por todos, como o nascer e o morrer da natureza e do homem. Tal explicação não é relevante para a organização da história do homem e do mundo de hoje[2]. De modo geral devemos dizer que os mitos vêem o divino como parte do vir-a-ser global do universo; são por isso o início e de qualidade primordial, e por isso superiores aos homens.

 

1.3 O género novo: o relato histórico salvífico sobre Deus e o homem (história    salvífica)

 

            O relato bíblico da criação absolutamente diferente dos mitos, embora usando certos elementos ilustrativos do mundo mítico, usa categorias que manifestam sua oposição a qualquer tentativa mítica. Entre tais características podemos enumerar (entre outras):

- O elemento principal é a relação da criatura com o Deus absoluto.

- Falta absolutamente qualquer vestígio de uma luta entre o Criador e a natureza;

- O verbo “bara” (criar) mostra o agir divino com total soberania (“e Deus disse, faça-se; e assim se fez”).

- Antes de tudo é importante notar que as forças astrais são simplesmente submissas ao Criador.

- A naturalidade com a qual se fala da bipolaridade sexual, sem sacralizar o sexo, mas sem “demonizá-lo”.

- Longe de qualquer magia ou encantamento, todas as coisas, em sua ordem e verdade, são expressões da palavra criadora, e possuem assim uma “cognoscibilidade” racional.

- tudo é visto exclusivamente em sua dependência de Deus; e somente a partir daqui se vê a relação entre as criaturas.

- O fato de os onze capítulos “pré-históricos” do relato da criação serem estruturalmente colocados antes da história de Abraão, demonstra que os autores querem ver o conteúdo dos onze primeiros capítulos como ação real do mesmo Deus que na história de Abraão manifestou sua onipotência. “Os eventos da origem estão em analogia com a história real dos padres da fé” (Scheffczyk III,63)[3].

 

1.4 A ruptura radical no relato bíblico: “Façamos o homem à nossa imagem”

(Gen 1,27)

           

Com majestosa soberania é usada a palavra “bara” (criar). Trata-se, no Antigo Testamento, de “um terminus technicus, reservado ao agir de Deus” [4]. – Em Gen. 1-3, e 4-11, tudo é orientado para a descrição da relação de Deus com o homem. Destarte, Gen. 1-11 fornece o fundamental significado para a vida de cada homem e para a compreensão da história.

 

2) O homem, imagem e semelhança de Deus

 

2.1 O homem deve pertencer somente a Deus

 

            Quanto mais marcada é a monotonia da narração dos primeiros cinco dias (“Deus disse: faça-se; e Deus fez”), tanto mais contrastado é o sexto dia, mediante uma ruptura no estilo, ao descrever a criação do homem: “E Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Deus criou o homem à sua imagem; a imagem de Deus o criou; varão e mulher os criaram” (Gen. 1,26-27).

É evidente que este versículo indica o ponto culminante da obra dos seis dias. O inaudito, que aqui se verbaliza, deve ser entendido em dois sentidos. O homem ao ser criado recebe seu início e princípio dentro do centro do íntimo amor de Deus, sendo inaudito que, não obstante a infinita diferença entre Criador e criatura, um ser criado possa surgir de tal intimidade de Deus, trazendo em si como a mais profunda característica a semelhança com Deus. Mas é indicada, ao mesmo tempo, uma outra direção, um outro movimento, Deus assume a Si, de modo totalmente único, esta criatura que é o ser humano. Sendo semelhante a Deus, o homem lhe deve pertencer de maneira peculiar e exclusiva. O homem é assunto dentro de uma verdadeira familiaridade com o Deus três vezes Santo. O preceito dado no paraíso é ainda uma vez prova desta eleição: o homem, recebendo todo o seu ser da iniciativa de amor de Deus, é chamado a entrar com livre e espontâneo amor na comunhão com Deus[5]. Neste contexto é sumamente instrutivo o que o Papa João Paulo II dizia em suas catequeses das quartas feiras do ano 1979 ao ano 1984, falando sobre o varão e a mulher.

            No relato da criação encontramos tanto o realismo da riscada experiência da vida[6], quanto o mistério do homem e do matrimônio. A santidade original da vida humana não diz respeito somente à interioridade da consciência, mas esta santidade se refere também à corporeidade e a dualidade sexual e à transmissão da vida na família.

 

2.2 A solidão original do homem em seu caminhar para Deus

            Com uma sugestiva análise do segundo capítulo de Gênesis, no dia 10 de Outubro de 1979, o Papa falava de uma solidão dupla do homem. O homem encontra-se em um profundo relacionamento com todas as criaturas que o circundam, e o segundo capítulo de Gênesis mostra em uma imagem sublime como o homem assume a sua função de rei do universo, dando nome a tudo. Não obstante, o homem fica solitário em um sentido duplo. Abre-se aqui na palavra do Papa uma perspectiva de rara beleza.

            O homem possui uma semelhança com as coisas do mundo, e é feito do pó desta terra; mas em última análise ele fica em uma quase indizível solidão. Trata-se, em primeiro lugar, da solidão do ser humano como tal (varão e mulher), e não somente da ausência da mulher que deixa a vida do homem incompleta[7]. O Papa insiste em constatar uma dupla solidão:

- uma advém ao homem a partir do mais profundo de seu ser criatura, dotado de inteligência e amor, que têm uma necessidade nunca saciada de encontrar o Criador;

- a outra solidão é o resultado da natural reciprocidade entre homem e mulher. Esta segunda solidão é respondida na colaboração e rica complementação, em inúmeras formas de encontro entre os dois.

            Aquela primeira solidão, a metafísica, não diz respeito à queda e à perdição pelo pecado. Trata-se daquela íntima e original insuficiência do homem, pela qual ela é orientada, em sentido absoluto, para Deus. Sabemos que no paraíso o homem era dotado da comunhão de graça com Deus. Mas é exatamente a gratuidade da graça que prova que o homem, de por si, só se pode experimentar como incompleto, insuficiente. Também quem traz em si a graça, sabe-se portador de uma intrínseca e infinita indigência, de uma insaciável sede pela verdade, pela bondade, pelo belo, por Deus.

 

2.3 A dualidade do sexo, expressão plena da imagem de Deus, e caminho para Deus

Não basta ao homem ser parte deste universo. No contato com o universo (Gen. 2,19), ele aprende a questionar-se a si mesmo, porque nenhuma outra espécie do mundo lhe pode ser comparada. A grandeza do mistério se revela ainda uma vez na relação do homem com a mulher. Esta traz ao homem, e recebe dele, uma imensa plenificação de seu ser; mas nem ele e nem ela podem jamais ser totalmente preenchidos por uma criatura. A mulher e o homem, em seu caminhar para o Deus invisível, devem ser um para o outro espelho misterioso do próprio Deus, companheiro e companheira – na alegria e na dor – e esperança sempre renovada.

            É exatamente na dualidade dos sexos e na recíproca relação entre homem e mulher que ainda uma vez se evidencia o que o homem é. Enquanto todos os outros seres são criados cada um segundo a sua espécie, é o homem o único ser criado não segundo a sua espécie, mas segundo uma espécie “alheia”. Somente Deus pode satisfazê-lo completamente. Nenhuma filosofia ou sabedoria humana jamais era capaz de dizer algo mais profundo. Daí resulta que a santidade de cada vida é um compromisso, porque a santidade sua deve tornar-se santidade de todos. Toda relação entre pessoas humanas quer ser elevada à comunhão na imagem de Deus. Aqui se revela a grande dignidade da dualidade dos sexos.

Aqui, a dualidade sexual nem é demonizada, nem miticamente divinizada.  Cada um deve ser para o outro, (não somente, mas também e, mormente, na dualidade sexual) imagem de Deus. Aqui se manifesta o quanto cada comunhão humana, mas de modo singular a dualidade sexual, deve ser expressão do amor de Deus, e ao mesmo tempo estímulo na caminhada para o encontro definitivo com Deus.

Aqui caberia uma reflexão muito essencial sobre o significado cristão da virgindade e da vida casta fora do matrimônio. A castidade celibatária, a virgindade, quer antecipar e testemunhar nada mais do que o valor definitivo de toda forma de amor humano. Virgindade por amor ao Reino dos Céus quer ser também para o matrimônio modelo e meta, revelando Deus como última meta de todo amor.

 É essencial notar que segundo a Bíblia (cf. Gen. 1,27) compete a ambos os sexos absolutamente igual dignidade, cogitada e criada por Deus. “Transcendendo toda particularidade das culturas, vemos aqui a relação entre homem e mulher como a forma mais original da comunidade humana”[8].

 

2.4. A amizade com Deus

            A repetição quase monótona do “Deus viu que (tudo) era bom”, diz Scheffczyk (III, 74), quer acentuar que o Deus Santo, por puro amor, imprimiu à criatura predileta e mais sublime na terra, “o selo de uma bondade essencial e isenção de qualquer mácula”. Não bastaria ver o ser imagem de Deus seja na inteligência, seja na superioridade do homem sobre as outras criaturas, seja ainda no seu porte ereto. A imagem de Deus significa algo muito mais profundo. Todas as outras criaturas referem-se a Deus somente indiretamente, enquanto o homem nelas reconhece vestígios de Deus. O homem, porém, é o único a encontrar-se em um face a face com Deus. O homem deveria habitar no jardim de Deus; circundado de cuidado e amor divinos. Mesmo o preceito no paraíso, oportunidade de realizar sua liberdade em amorosa entrega a Deus, é um passo no caminho para a plena felicidade em Deus. É este o sacrossanto destino de cada ser humano, tanto na criança concebida, como no adulto. Sabemos que a partir do pecado original, cada um precisa ser reconduzido à plena comunhão com Deus através do batismo e da fé. O “nefando crime” (GSp 51.3) do aborto é delito contra o ato do santo Deus Criador, o qual, desde o início, chama a criatura nova para esta divina intimidade.

 

2.5. O afastamento de Deus

            Somente a divina altura da vocação humana revela-nos o abismo insondável da perdição no pecado. Se Deus, de fato, dá ao homem uma nova esperança, a felicidade do homem jamais se poderá encontrar no isolamento, longe de Deus e longe dos que, como eles, são (e devem ser) imagem do Divino. Somente em Deus, o homem poderá encontrar realização, eternidade, vida, amor sem limites. É para dentro desta vocação divina que cada pessoa humana deve conduzir o seu próximo. Cada um deve ser para o próximo ajuda e sinal desta essencial relação com Deus. Se não o for, ele corre o risco de tornar-se obstáculo ou até mesmo sedutor. Assim, devemos dizer, a solicitude pela eterna felicidade do próximo é parte constitutiva de nossa íntima relação com Deus. Sem a comunhão em Deus, qualquer proximidade humana ameaça degradar-se em saturação, em vazio ou no cansaço e na náusea de uma sensualidade doentia. Mas na solicitude pela salvação do próximo é revigorada e celebrada a amizade com Deus.

 

3) Ser criatura do Deus Trino

 

3.1 Dados da Bíblia

            Mesmo que o Antigo Testamento não tematize este aspecto, o cristão sabe que ser imagem de Deus só pode significar ser imagem do Deus em sua eterna realidade: o Deus Trino. Somente à luz do Novo Testamento teremos a possibilidade de decifrar certas insinuações no Antigo Testamento. A “Palavra” (lógos) de Deus é mostrado como a divina operação criadora, mas esta “Palavra” é também aquela potência santa que dirige a história de Israel, dando-lhe orientação, força e meta (cf. S. 33,6; 1Sam 9,27; 2Sam 7,4). Esta Palavra é também a “sabedoria” de Deus (cf. Prov. 8,27; Sab 7,24ss; 8,1; 8,18) (cf. Scheffczyk III,115). Igualmente, a mensagem a respeito da sabedoria (sophía) é tão expressiva, que Philo, judeu helenístico, erudito e profundamente religioso, quer ver na “sabedoria” um segundo ser divino (deúteros theós).

            Não é necessário ver no Espírito que paira sobre o abismo e as águas uma revelação explícita da terceira Pessoa Divina. Mas no Novo Testamento ficará claro que o Espírito, citado tantas vezes, e enviado ao mundo como princípio clarificador, é em última instância o ESPÍRITO pessoal de Deus, que tudo santifica, e em tudo insere a salvação.

            No Evangelho de João, a função criadora da Palavra alcança a sua expressão mais completa e insuperável (Jo 1,1-14; 1Jo 1,1; Apoc 19,13). Tudo isto vem a confirmar que aquilo que se expressa na criação tem um significado realmente intratrinitário.

 

3.2 A doutrina da Igreja

            O Concílio Lateranense IV (1215) formulou como dogma de fé que “a substância, a essência ou natureza da divina Trindade é a única origem de tudo, e fora da Trindade santa não existe outra causa” (DH 804: “…substantia, essentia seu natura divina: quae sola est universorum principium, praeter quod aliud invenriri non potest”).

 

3.3 A plenitude de nossa vocação

            Se Deus é nossa meta e nossa única felicidade eterna, então se compreende que o homem tem, em sua íntima essência, sua origem no próprio mistério do Deus Trino. Este Deus absoluto, sendo nossa origem, quer ser nossa meta feliz. A plenitude da dignidade do homem (e sua meta) é exatamente entregar-se e ser assumido para dentro da relação com a Santíssima Trindade: com o Espírito, que nos dota de paz divina, e do qual recebemos a força e a alegria de iluminar o mundo e de conduzi-lo a uma progressiva unidade (não obstante toda diversidade); com o Filho, que sempre surge de Deus e para Deus volta, nos abraça com seu transbordante amor divino, e nos faz desde já partícipes do Reino dos Céus; com o Pai, origem última de todo bem e meta feliz, que será tudo em todos (1Cor 15,28).

 

4) Criados em Cristo, por Cristo e para Cristo

 

4.1 No Evangelho de João e em Paulo

            Como acima (3.1) aludimos, já no prólogo do Evangelho de São João, a função criadora da “Palavra” alcança o seu mais alto nível, deixando-nos entrever uma dimensão trinitária do homem (e de todo ser). “A Palavra (o Verbo) estava junto de Deus e o Verbo era Deus … E tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito” (Jo 1,1-3).

            Em Paulo este pensamento alcança uma densidade dramática. Com grande clareza é introduzida a função criadora de Cristo: “Para nós há um só Deus, o Pai, do qual procedem todas as coisas e para o qual existimos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem todas as coisas existem e nós também” (1Cor 8,6)[9]. Com uma clareza insuperável, o pensamento é retomado na carta aos Colossenses 1,15-18a):

            15 “Ele é a imagem de Deus invisível, o primogênito de toda a criação”.

            16 “Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra … Tudo foi criado

por ele e para ele.”

17 “Ele existe antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nele”

18 “Ele é a cabeça do corpo, da Igreja”.

 

4.2 Protologia e Escatologia

            Como na perspectiva do agir de Deus na história (em Jesus e na Páscoa) a fé vê com certeza o significado escatológico da história (Escatologia), analogamente, este agir poderoso de Deus exige uma reflexão radical sobre o início, uma Protologia. – O mistério da Cruz e o triunfo pascal têm o seu sentido pleno, quando deles brota a plenificação da graça para nós. O por Ele e o para ele do ato criador torna-se a protologia daquilo que a escatologia promete, “quando ele entregar o reino a Deus Pai … porque é necessário que ele reine … E quando tudo lhe estiver sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem àquele que lhe sujeitou todas as coisas. A fim de que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,24-28). Somente aquele, por quem e para quem tudo foi criado, pode ser o redentor de tudo e a plenitude de tudo (cf. Ef 1,10-12).

 

4.3 A amplidão cósmica do júbilo divino no hino cristológico da Igreja

            Sabemos que a santidade, perdida pelo pecado original, só será plenamente recuperada pelo sacramento do batismo. Mas não podemos negar que a Escritura vê já em cada criatura uma profunda orientação, em Cristo, para Deus. E tal orientação para Deus e em Cristo não é apenas algo exterior, mas é um real destino (embora realizado plenamente só no batismo de Cristo) para participarmos na misteriosa e adorada santidade de Deus. Para essa entelequia para Deus, já operante em todo homem de boa vontade (cf. GSp 22.5) (embora plenificada somente no batismo e na fé explícita) seja-me permitido fazer uma comparação. Uma menina judia não passava pelo rito da circuncisão pelo qual os meninos eram integrados no Povo santo de Deus. Mas pela oração confiante e pelo exemplo da mãe e do pai, também as meninas pertenciam igualmente ao povo eleito. Assim, a mãe cristã que reza sobre a criança que ela traz em seu seio, já oferece e restitui a Deus esta criança para desde já, de modo misterioso e inacessível para nós, estar assumida (mesmo só incoativamente) dentro da divina ordem salvífica que São Paulo assim descreve:

            “Há um só Deus, o Pai, do qual procedem todas as coisas e para o qual existimos, e um só Senhor Jesus Cristo, por quem todas as coisas existem e nós também” (1Cor 8,6)[10]. A oração de pais cristãos sobre a criança ainda não nascida, já celebra, em uma confiante antecipação, a vocação divina da vida humana, e tem em si algo de um solene “Intróito” antecipado do rito do batismo, já almejado pelos pais. Este batismo, com infalibilidade sacramental, trará a redenção em plenitude.

            A vida é santa a partir do divino desígnio. Na oração, e plenamente no batismo e nos outros sacramentos, é vencida a maldição do pecado original. E cada um pode e deve contribuir para a construção do santuário da vida de todos os homens. Antes de tudo os pais, mãe e pai, têm para isto uma mediação divinamente dada a eles pela santidade do matrimônio.

            A suprema solenidade da liturgia cristã, a Igreja não pode celebrá-la sem renovar os fundamentos de sua fé, no contato direto com a fonte de toda salvação. Nesta mais real presença do Deus Trino Salvador, a Igreja inclui, um por um, toda a humanidade na grande adoração de sua maior fórmula de louvor e de adoração (a grande Doxologia), quando ela proclama:

 

Por Cristo, com Cristo e em Cristo,

A vós Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo,

Toda honra e toda glória!

 

Amem!

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  

 



[1] A citação “Scheffczyk III” refere-se sempre à obras Scheffczyk Leo, Schöpfung als Heilseröffnung, in Leo Scheffczyk und Anton Ziegenaus, Katholische Dogmatik, III volume

[2] É essencial para os mitos que o vir a ser dos deuses e dos homens são fases sucessivas de um único processo imanente da cosmogonia. De grande força ilustrativa é o mito “Enuma elish” (1700 antes de Cristo), conforme o qual o vir a ser dos deuses não á nada mais do que a primeira fase do vir a ser do universo a partir de um Caos original. Scheffczyk (III 60) cita também o mito sumérico “Diolenum”, mil anos mais velho, segundo o qual a origem do mundo seria o fruto de uma luta telúrica pela junção marital entre as potências da natureza, entre Oceano e a mãe terra, de qual junção surgirão os deuses e sucessivamente as “criaturas”.

[3] C. Westermann, Schöpfung, 58 distingue nas tradições das diversas culturas quatro tipos (cf. Scheffczyk III, 61): a) a produção do mundo através de um agir semelhante ao agir do homem; b) a criação mediante o gerar e o nascer dos deuses (com sucessiva produção dos outros seres); c) a origem do mundo devida a uma luta gigantesca dos deuses (do Deus) com potências cósmicas adversas e hostis; d) a criação se faz pelo imperativo da palavra divina. Scheffczyk reconhece que no relato yahwista não faltam elementos análogos ao agir dos homens (por exemplo: plasmar do barro). Todavia, isto não diminui a soberania do Criador. Ainda que em mitos babilônicos se fale da “palavra”, em última instância trata-se apenas de “cosmogonias”. (descrição do vir a ser do cosmo), nas quais os deuses não são criadores em algum sentido absoluto, são eles mesmos partes (fase inicial) do surgir do universo.

[4] J. Nelis, Schöpfung, 58, in: Haag, Bibellexikon, 1543. Ao lado de sua ocorrência em Ex 34,10; Nm 16,30; Jr 31, 22, encontramos a expressão praticamente só em textos exílicos e pós-exílicos. Muito relevante é que a expressão se encontre antes de tudo em Gen. 1,1-2,4a (7x) e em DtIs (16x). É significativo que, segundo a observação de H. Gross, Theologische Exegese de Gen. 1-3, in: Myst. Sal. II, 429 – o fato que em DtIs se trata antes de tudo da “nova criação no divino criar salvífico no futuro”. – Mesmo que a exegese recente recoloque em discussão a identidade do Yahwista, devemos levar em consideração que Gen. 2,4b-3, 24 pertence a uma época essencialmente anterior à época do “escrito sacerdotal” em Gen. 1,1-2,4a. Uma vez que o Yahwista não rejeita o uso de certos elementos ilustrativos oriundos de relatos míticos (plasmar de barro, inspirar a alma pelas narinas), torna-se compreensível e evidente que, após as duras experiências em Babilônia com o seus imponentes mitos, faça-se mister usar uma linguagem mais severa, alheia a qualquer perigo de aproximação aos mitos. Por isso, Gen. 1 usa a fórmula estereotipada e repetida do “Deus disse: faça-se, e Deus fez...”.

[5] O Concílio Vaticano II dirá: “O Senhor Jesus pede ao Pai «que todos sejam um..., como nós somos um» (Jo. 17, 20-22), e, abrindo perspectivas inacessíveis à razão humana, estabelece uma verdadeira analogia entre a união das pessoas divinas entre si e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade. Esta semelhança torna manifesto que “o homem é a única criatura na terra que Deus quis por si mesma, (e que) não pode se encontrar plenamente se não por um dom sincero de si mesmo” (GSp 24,sub finem).

[6] A luta pelo pão de cada dia, e o peso da convivência humana.

[7] Antes da criação da mulher (Gen. 2,21-22), o homem chama-se simplesmente homem (ser humano) “’adam”. Somente depois do aparecer da mulher, o seu nome é diferenciado: ’îš”, varão e “’iššah”, mulher.

[8] Cf. Scheffczyk III,77.

[9] Além da dimensão intratrinitária, releva-se aqui a dimensão cristológica, incarnatoria. – Encontra-se em Paulo um “Cristo cósmico” (cf. Ef 1,4.10; Col 1,15-18a; Heb 1,3). Nesta mesma perspectiva deve-se lembrar a função criadora do “Verbo” (Scheffczyk III,117).

[10] Quero lembrar aqui o artigo de rara beleza e profundidade do Cardeal Leo Scheffczyk, A dignidade da criança (Die Würde des Kindes), in: Conselho Pontifical para a Família, Lexicon, Termini ambigui e discussi su famiglia vita e questioni etiche) (2003),177-184.