CONGRESSO MUNDIAL DE ORAÇÃO PELA VIDA!

Fátima, 4 a 8 de Outubro 2006
"Maria, a Vós confiamos a causa da vida"

 (João Paulo II, Evangelium vitae 105)

 

Nr. 11

 7 de Outubro 2006, Festa de Nossa Senhora do Rosário

Dr. Thereza Ameal

 

A Oração e o Jejum na Defesa da Vida

 

 

 

Antes de mais, queria dizer que de facto é difícil fazer uma palestra a dois e é só por essa razão que estou aqui sozinha, pois de facto tudo o que digo aqui, e tudo o que faço, faço-o a meias com o meu marido com quem partilho todas as preocupações, orações e trabalhos pela Vida.

 

Queria começar por contar uma história.

Em 1997, julgo que em Janeiro, houve uma fortíssima investida a nível parlamentar contra a Vida: tentava-se liberalizar, já então, o aborto a pedido.

Nessa altura, muitos católicos reuniram-se numa Vigília de Oração na Basílica da Estrela. Os resultados foram estranhos: numa primeira contagem foi comunicado que a liberalização do aborto tinha ganho por um voto, momentos depois anunciaram que tinha havido um erro e que era preciso refazer a contagem. A Vida tinha vencido por um voto!

Foi, evidentemente, uma enorme alegria. Mas ficou claro para muitos que as tentativas abortistas não ficariam por ali.

Em conversa sobre isso, e sem sabermos muito bem o que fazer perante esta perspectiva, um pequeno grupo de amigos que se tornariam grandes companheiros de trabalho, pensaram: “E se fossemos em peregrinação a pé a Fátima, em casal, dado que os casais são os naturais dadores de vida, para pedirmos instruções a Nossa Senhora?”. E assim nasceu a primeira peregrinação de casais “Com Maria Pela Vida” (acabámos agora de chegar da 17ª, pois em 9 anos têm-se multiplicado!).

Em Abril desse ano partimos: 14 casais acompanhados pelo Pe. Eduardo Aguirre, do Movimento Apostólico de Schoenstatt, e pelo Pe. Nuno Serras Pereira, Franciscano, com o objectivo fundamental de rezar pela Vida, e de nos pormos ao serviço da nossa Mãe nesta luta que é Sua.

Daqui viriam a sair inúmeras ideias e iniciativas muito práticas, mas mais do que tudo sentimos no coração que Maria nos dizia: “É preciso pôr Portugal de joelhos a rezar!”. Por isso, consideramos que a Corrente de Oração Pela Vida foi e é uma iniciativa de Nossa Senhora.

Apesar de todos rezarmos, fomos nós e o António e a Margarida Correia de Oliveira quem assumiu a organização deste movimento.

Desde logo, começámos a estabelecer contactos, pedindo também oração às Congregações Religiosas e a vários movimentos católicos, e, mais tarde, às Igrejas Protestantes, através da Aliança Evangélica.

Em Julho desse ano, iniciámos os encontros em Lisboa, na Capela do Bom Sucesso.

Enviámos cartas para todas as paróquias de Portugal pedindo que rezassem connosco. Propúnhamos uma hora mensal de Adoração do Santíssimo Sacramento, e oração do Terço com meditações alusivas à causa da Vida que enviávamos também; e ao longo dos meses fomos vendo a corrente de oração crescer alargando-se a todo o País. Mais de 100 paróquias fizeram, e algumas fazem ainda, Oração Pela Vida segundo o nosso guião, e mantém contacto regular connosco, mas sabemos de muitos outros locais que se uniram a esta iniciativa, especialmente na fase anterior ao referendo de 1998.

Entretanto, todos os que tinham ido àquela primeira peregrinação, e muitos mais, dedicavam-se com enorme empenho à causa da Vida, trabalhando com mulheres em risco, fundando casas de acolhimento para bebés, e depois preparando o referendo. A maioria das pessoas não sabe à custa de quantos sacrifícios tudo isto foi possível: jovens pais de família contraíram em nome pessoal pesadíssimos empréstimos que levaram anos a pagar, sei de um que tirou uma licença sem vencimento para se poder dedicar a tempo inteiro a este trabalho, de outro que ficaria depois no desemprego por muito tempo por ter “dado a cara” claramente a favor da Vida. Houve verdadeiros heróis na luta pela Vida duma forma totalmente anónima e discreta.

E no entanto, a diferença de meios era tal que humanamente tudo parecia perdido: a máquina dos partidos que faziam da liberalização do aborto uma bandeira política de especial importância, a manipulação constante e quase unânime dos acontecimentos nos “mass-media”, a falta completa de meios financeiros para fazer uma campanha, tudo se conjugava para uma derrota que parecia, aos olhos de muitos, inevitável. Uma semana antes do referendo, as sondagens (e hoje em dias as sondagens não se enganam!) davam 60% ao “Sim” e 28% ao “Não”. Só a Esperança, aquela esperança cristã que tem a certeza de que tudo é possível e que Deus vencerá no final, nos mantinha numa confiança inabalável.

No mês anterior ao referendo, tudo acelerou, a acção e a oração. Propusemos encontros semanais de oração a partir de 14 de Maio, uma novena a partir de 19 de Junho, e uma vigília na noite anterior ao referendo.

Em Lisboa, esses encontros semanais fizeram-se em várias paróquias, a novena na Capela do Bom Sucesso, e a vigília na Igreja de Santa Maria de Belém (Jerónimos), na Sexta-feira anterior à votação.

Quando dissemos que íamos rezar nos Jerónimos, muitos acharam que estávamos loucos. “Os Jerónimos nunca enchem”, diziam-nos. Nessa noite, a igreja não albergava nem metade dos que gostariam de participar! E o ambiente de fé, a força do Espírito, a presença de Deus foram tais que muitos sentiram o mesmo que nós e nos vieram dizer no final: “As nossas orações foram ouvidas, hoje Deus fez uma reviravolta na História, a Vida vai ganhar!”

No dia do referendo, 28 de Junho de 1998, estivemos toda a tarde, até ao fecho das urnas, na capela do Bom Sucesso, em acção de graças. E depois, calmamente, sem sabermos nada do que se passava, sem vermos a televisão onde os defensores do “Sim” cantavam vitória desde o início, o Miguel e eu fomos jantar a dois, totalmente em paz. Até que começaram a chover os telefonemas de amigos: “É incrível, o impossível aconteceu, estamos a ganhar!”.

Sem querer entrar em definições teológicas, para mim foi um milagre, o impossível aconteceu. Como eu digo sempre, a vitória foi de todos, mas o que fez toda a diferença foi o voto de Nossa Senhora: 1 voto no Parlamento em 1997, 1% no referendo de 1998, sempre só o suficiente, para não nos deixar descansar e cruzar os braços. Pedagogia de Deus, pedagogia de Maria, sempre boa Mãe, e grande Educadora.

 

Deus deu-nos uma segunda oportunidade, e sem dúvida que nos era pedido que trabalhássemos mais e rezássemos mais.

É verdade que nestes anos, muito trabalho, maravilhoso trabalho, tem sido feito por múltiplas pessoas e associações de defesa da Vida, mas infelizmente parece que simultaneamente assistimos a uma menor adesão à oração.

Diz o Cardeal Suenens:

 

“Não ousamos acreditar naquilo que somos, isto é, no Cristo vivo e activo em nós. Não ousamos acreditar na oração até ao milagre. É necessário que os responsáveis pela doutrina, a todos os níveis, nos ensinem de novo, e mais profundamente, o verdadeiro sentido da oração, sempre eficaz segundo o pensamento de Deus; a natureza do amor paternal de Deus, que é o Deus dos vivos e não dos mortos, que não é a fonte do mal e que deseja o bem-estar integral dos seus filhos; o sentido purificador e transformador do sofrimento aceite, que Deus faz concorrer para o bem daqueles que Ele ama. É preciso que a nossa oração assuma toda a complexidade do real (…). A nossa oração deve abraçar tudo aquilo que tem necessidade de ser curado; deve expor aos raios da graça de Deus todo o sofrimento humano, tanto presente como passado. É preciso lembrar que Jesus era ontem como é hoje; e que Ele é o Senhor tanto do passado como do presente.

(“A Renovação Carismática - Um Novo Pentecostes”, Cardeal Suenens)

 

Mas nestes tempos de competição e eficiência, os próprios católicos, e muitas vezes os próprios sacerdotes, parecem esquecer ou desconfiar da eficácia da oração. A acção directa e de resultados imediatos, que é sem dúvida necessária e importantíssima pois Deus quer as nossas mãos como instrumentos no mundo, impõe-se na mentalidade ocidental. De tal modo que muitos católicos que se dedicam, e bem, à solidariedade visível, esquecem o enorme poder da solidariedade invisível presente na oração e no sacrifício por amor.

 

A Irmã Lúcia, nas suas memórias, conta um dos exemplos mais flagrantes do oposto desta mentalidade actual de que falamos:

 

“ Quando, nesse dia, chegámos à pastagem, a Jacinta sentou-se pensativa, em uma pedra.

- Jacinta! Anda brincar!

- Hoje não quero brincar.

- Por que não queres brincar?

- Porque estou a pensar. Aquela Senhora disse-nos para rezarmos o Terço e fazermos sacrifícios pela conversão dos pecadores. Agora, quando rezarmos o Terço, temos que rezar a Ave-Maria e o Padre–Nosso inteiro. E os sacrifícios como os havemos de fazer?

O Francisco discorreu em breve um bom sacrifício:

- Demos a nossa merenda às ovelhas e fazemos o sacrifício de não merendar!

Em poucos minutos, estava todo o nosso farnel distribuído pelo rebanho. E assim, passámos um dia de jejum que nem o do mais austero Cartuxo!”

(Memórias da Irmã Lúcia – 1ª Memória)

 

Para a maioria, este é o exemplo da “inutilidade” do sacrifício no seu máximo esplendor. O jejum que não serve a ninguém! Nem sequer houve uma lógica de solidariedade social, os Pastorinhos não deixaram de comer para matar com o seu farnel a fome de algum faminto, distribuíram o seu alimento pelas ovelhas simplesmente por amor aos pecadores… e quantas almas terão convertido certamente com este gesto!

 

Porque de facto cada um de nós está ligado a Deus, mas todos os homens, no Céu e na Terra, estão também ligados entre si por uma rede de amor. Uma rede espiritual que liga todos os seres humanos uns aos outros, todas as orações umas às outras, e é por isso que podemos rezar ou oferecer um sacrifício por uma pessoa que está do outro lado do mundo, e que podemos rezar pelos que morreram, e confiar na oração dos Santos que continuamente pedem por nós, porque essa rede espiritual que nos liga a todos como irmãos não tem barreiras de tempo ou espaço.

Mais uma vez, sem querer entrar no âmbito da Teologia, pois não tenho habilitações para isso, mas partilhando a minha experiência pessoal, posso dizer que confio na liberdade dos homens mas também confio no poder da oração. Não consigo entender como é possível, mas julgo que a nossa oração dá a Deus, que deseja o bem dos seus filhos mas respeita infinitamente a liberdade de cada ser humano, a possibilidade de intervir na vida daqueles por quem rezamos, porque o nosso amor lhes abre o coração à Sua acção e à Sua Palavra.

Os laços que nos unem (aquela rede de transmissão que envolve o Mundo e nos liga também ao Céu) são laços de amor. Quanto mais amor tivermos mais unidos estaremos ao nosso irmão e mais facilmente abriremos o seu coração à acção de Deus. É como se a nossa oração afastasse a nuvem, e ao sentir o calor e a luz do Espírito o coração se abrisse, tal como a flor se abre ao sol, permitindo a Deus agir.

 

A resposta verdadeira para o flagelo do aborto e para todos os atentados contra a vida, está na oração, na penitência, na oblação de nós próprios em actos aparentemente incompreensíveis para o mundo, como o jejum, mas também na acção concreta de transformação da sociedade que nos é pedida a todos.

 

Esta experiência de nove anos provou-nos não só o extraordinário poder da oração, mas mostrou-nos também o seu poder pedagógico: a petição pela Vida na oração universal na Missa é a catequese mais simples e que mais toca o coração dos fiéis, a oração mensal por esta causa aprofunda o empenho de todos. Quem reza pela Vida, é levado a pensar nela, é educado para amá-la e respeitá-la, é incentivado a agir em sua defesa.

 

Como disse no início, todos os peregrinos que começaram a rezar pela Vida se tornaram grandes activistas na luta contra o aborto nas mais variadas frentes.

Só para mostrar uma das muitas iniciativas que surgiram da oração, gostaria de apresentar-lhes muito rapidamente o kit “Vidas com Vida”.

O kit começou a ser feito por uma pequena equipa (o casal Ricciardi com os seus filhos, nós e a Inês Monteiro), mas neste momento tem já a ajuda de um sem-número de voluntários.

O nosso desejo é oferecer a qualquer pessoa que queira ajudar na criação desta nova mentalidade, que mais que anti-abortista deve ser amante da vida, um instrumento de trabalho positivo, cientificamente impecável mas de fácil utilização, para fazer sessões de esclarecimento, dar aulas, etc., e para poder ajudar de forma muito concreta a encaminhar mulheres em situação de risco para associações que possam dar resposta às suas dificuldades incutindo a esperança necessária a uma decisão a favor da vida dum filho por nascer.

Gostaríamos de oferecer um kit “Vidas com Vida” a cada paróquia, a cada escola, a cada associação, e propomos também um pequeno curso de formação de formadores, de um dia ou uma tarde, para aqueles que desejem tirar o melhor partido dos materiais e queiram passar de forma bem estruturada e num tom correcto esta deslumbrante palavra de Vida. Porque se impedir um bebé de nascer é impedir um sonho de Deus de se realizar, ajudar uma mãe a dar vida ao seu bebé é ajudar esse sonho a realizar-se!

 

Este é só um dos muitos projectos que tantos têm vindo a desenvolver, e pedimos também a vossa oração pelos seus frutos.

 

Mas em conclusão, a mensagem final que gostaria de deixar é esta: a eficácia da oração, do sacrifício e da acção será tanto maior quanto maior for o amor que aí pomos.

A solução está, como sempre, em aprender a amar. É de facto esse o maior mandamento, a missão que inclui todas as missões.

 

Thereza Ameal – 3 de Outubro de 2006